domingo, 31 de julho de 2022

A fungada q precede a mordida

Fome, vírus, rinite,
o perigo da piada
Não sai do quarto,
da cozinha ou da sala.
Rotina estranha,
vida isolada.
Nada de férias:
fica em casa!!!

Jenny Faulstich 
(Resende, 31/03/2020)

Poetas da quarentena

Produção de versos em alta,
pra tanta luta, haja poema!
Enfermeiros, médicos, pesquisadores,
entregadores, até o pessoal da limpeza,
soldados árduos de altos valores,
linha de frente na guerra pandêmica.

Jenny Faulstich
(Resende, 12/04/2020)

Mais um dia de muita dor

Mais um dia de muita dor!
Acordar por si só já foi um suplício.
Almoçar com um boa notícia 
e a alegria durar tão pouco.
Na sequência foram só cólicas,
dores de cabeça, aspirador de pó,
sintomas e notícias de covid,
saber que perdi mais um amigo
cujo coração não suportou tanta decepção.
Menos um fazedor de trovas, planilhas e sonetos, 
defensor do amor e da justiça social.
Não vou mais encontrá-lo no mercado, nem no pátio,
portanto sempre tê-lo em nosso ideal Oito Deitado:
"A vida tem seu tempo,
Que às vezes foge no vento:
Pura perda de tempo."
Gratidão Mário Augusto, Martins, Guto!

Jenny Faulstich 
(Resende, 29/10/2021)

Socializando nas lives,

Socializando nas lives,
redescobrindo prazeres,
fazendo novas memórias 
e agregando às antigas.
Surpresas reincidentes 
de ausências e presentes,
tudo que a liberdade poética permite
e a mente não sente. Percebe? 
Das seletivas riquezas da quarentena,
tanta coisa que não se mede 
na fluidez do tempo que transcende
mesmo que a vida se acabe.

Jenny Faulstich 
(Resende, 11/04/2020)

Conforto de um sonho

De repente, aquele conforto,
finalmente adormeci com lindos sonhos,
todos bem, eu de quadril novo,
vida fluindo, família, lazer, trabalho
e mais um dia surge sem rosto,
Desperto, deprimo, realizo
uma pandemia consumindo vidas,
um verme competindo iguarias,
criminoso que diz ser fantasia.

Jenny Faulstich 
(Resende, 24/03/2020)

Ficarei insuportável

Estou deficiente, não estou morta!
Lembrarei de cada desdém
quando eu aparentemente "estiver" gostosa.
Esnobarei mesmo, ficarei insuportável,
já que só alguns saibam,
que eu garanto só num beijo,
o pulo do gata!

Jenny Faulstich
(Resende, 11/01/2020)

terça-feira, 21 de junho de 2022

Maca 604.1

Está frio, muito frio!
Já sinto gelar por dentro
junto com a angústia,
com o pensar dos tempos
de cada último instante...
Último escovar de cabelos
Última palavra trocada.
Último beijo
que nem possuo mais lembranças.
Outro beijo poderia ter sido o último...

Desfaço as tranças
de dúvidas, paranóias e desejos
num jogo trevoso coletivo,
ardente até atingir a aurora.
Não tenho mais medo!
Perdi a história.
Me perdi na história.
Ganhei a custosa passagem 
desse caminho frio
contra a minha vontade.

Jenny Faulstich 
(Rio de Janeiro, 21/06/2022)

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Pensei em relatar

Pensei em relatar
como eu morri por esses dias.
Seria como uma manchete,
um plantão de más notícias.

Jenny Faulstich 
(Resende, 23/03/2020)

Encostada

Sinto que não faço mais parte
de uma equipe, uma meta, uma rotina,
piro e mudo o foco do embate,
mas o sofrimento nunca que termina.
Apavoro pensar num resgate
que cada vez mais se aproxima.
Não consigo ser, além de saudade,
trabalhadora fora da estatística.

Jenny Faulstich
(Resende, 15/02/2020)

Percurso

Um osso, um sono, 
um sopro, um passo, 
depois outro, devagar, 
bem devagar, a vagar, 
desesperada, tão esperada, 
já decapitada, substituída.

Primeira parte biônica, 
primeira fase, parece um prêmio, 
quase sem acreditar, 
tantos anos, tantas dores, tanto trabalho, 
tanta vontade de caminhar de novo, 
trilhar de novo, viver de novo, ou quase!

Jenny Faulstich 
(Resende, 23/11/2021)

Gato de salto alto

Gato de salto alto
Brincando com sotaque francês 
Gatô de salto altô!
Bulling com o pobre bichano 
deformado numa patinha
marcando o ritmo do caminhar
como se estivesse de sandalinha.

Jenny Faulstich 
(Resende, 12/04/2020)

Adele

Ela me ataca, me agarra, me arranha,
não me deixa sair da cama!
Pede colo, mia, escala, brinca,
enrosca na roupa, na corda, na fronha.
Gata preta bruxa garota,
depois dorme gostosa, 
suspira leve, linda estilosa
e ressurgir ranzinza, quieta, falsa indefesa.

Jenny Faulstich 
(Resende, 24/11/2021)

Horta suspensa

O alecrim virou lenda, mas 
a pimenta se mantém acordada!
Hortelã comemora dias seguidos de divina lágrima.
O cheiro que sobe antes da mordida é da Cidreira.
Todas suspensas, moradores ansiosos
e agricultora temerária, distraída e lenta!

Jenny Faulstich 
(Resende, 01/01/2022)

Poço do céu

Cinzas nas águas em que focam minha mente
Oxum me guarda nessa escalada para o céu 
Poço bondoso, lindo, esperançoso
Onde um dia minha pauta guiaria
Receberá solene minha paz eternidade.

Jenny Faulstich 
(Rio de Janeiro, 20/06/2022)

Futuraria

Me vejo no espelho do pretérito
Derretida, flácida, passada
Um futuro tão perto
Um presente advérbio.

Jenny Faulstich 
(Rio de Janeiro, 20/06/2022)

domingo, 19 de junho de 2022

Já morri de tanto jeito

Eu já morri de tanto jeito. 
Eu durmo e sonho tudo de novo.
Tumor, acidente, pandemia,
de amor, tristeza e histeria.

Piadas, filmes e versos ruins
arrebentam ou emendam o fio da meada.
De calor, suor em gotas, abafada,
despertador do vizinho na madrugada.

Lembrança aleatória de lugares, pessoas,
timidez de travar, urinar, desmaiar,
tragédias, ideias, correntes e gafes.
Já morri de vergonha, caminhada e olhares.

Criei monstros desaforos, nóias, expectativas,
derrocadas com prévia certeza regra,
desde amizades com o sexo oposto.
Já morri humilhada, com solidão e desgosto.

Jenny Faulstich 
(Resende, 09/09/2020)

Combinada chance

Um dia inteiro trabalhada no ciúme,
até refletir que também sentia inveja.
Inveja daquela que por ele foi beijada, 
que é sempre por todos desejada.
E eu só queria uma chance,
uma já combinada chance,
que se perdeu na madrugada.

Jenny Faulstich 
(Resende, 14/06/2022)

"Se organizar direitinho"

Não estou preparada de fato
pra mudança, pro amor, pra vida!
Eu que sempre estive atrasada,
desisto antes de tentar a conquista.
"Se organizar direitinho..."
não passa de uma utopia!

Jenny Faulstich 
(Rio de Janeiro, 19/06/2022)

Neblina

A neblina vem como uma saudade.
Me cega, me congela, me entristece.
Imagino prazeres nos detalhes,
me iludindo num toque além realidade.

Jenny Faulstich 
(Resende, 18/05/2022)

Bisturi

Voltar pra mim
Dias assim
Menos comprimidos
Destruindo meus rins.

Arte de encontros
Não acontece pra mim
Fatia, instala, encaixa,
Espera sem fim.

Jenny Faulstich 
(Resende, 28/12/2021)

Não sou mais o que me alimentava

Não sou mais o que me alimentava.
A mente ordena, o corpo não responde
somente resmunga e se arrasta.
Água que falta, revolta que sobra,
o processo é lento, a temperatura alta,
passo mal na fila de espera pra vida.

Jenny Faulstich 
(Resende, 07/12/2022)

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Otária

Comprada com uma garrafa
Uma promessa descumprida
Um belo dia que desabafa
Ilusão otária daquela bebida.

Jenny Faulstich
(Resende, 12/06/2022)

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Passageira esquecida

Horas sozinha, ela foi esquecida!
Tetra paralisia, tristeza e agonia!
Chorei como se comigo fosse o acontecido 
Mesmo que eu só saiba por um pouco
Do que seja depender de ajuda e cadeira.

Jenny Faulstich 
(Resende, 07/06/2022)


Foto: Reprodução/Twitter Sonia Sodha

domingo, 5 de junho de 2022

Unilateral

Emendo os rolês porque não posso ter
o que muitos conseguem ao meu contorno,
enquanto só observo, desejo e escondo.
Confundo o fio de fato e o quebrado
da última paixão com impossível atual,
interesse unilateral, vácuo pressente
voltar ao zero e recomeço o ciclo natural.

Jenny Faulstich
(Resende, 05/06/2022)

terça-feira, 10 de maio de 2022

Amor imperfeito

Bad, fome, sede, decepção... 
Cantei o amor e ninguém me acudiu.
Deveria não ter esperado
o desejado socorro, boca a boca.
Cerro meus olhos novamente,
sozinha, meio desligada,
em lágrimas, afogada!

Jenny Faulstich
(Resende, 05/05/2022)

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Preterencial

Mesmo inteira nunca fui suficiente!
Meus desejos guardados há anos
aguarda o improvável:
alguém que me queira incompleta,
que me dispa e me vista,
que encare uma marca, ou duas...

Hoje gorda, amanhã talvez até desperte
um interesse, passageiro.
Estarei então mínima e flácida, 
não mais me despirei por completo,
mesmo que eu possa vir a me vestir sozinha,
espero me cobrir de dignidade
e guardarei as vontades para uma outra vida.

Jenny Faulstich
(Resende, 05/05/2022)

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Cada passo não é o mesmo passo

Em cada passo que eu dou,
eu sinto dor! 
Às vezes mais, às vezes menos,
muda só a intensidade.
Há quem diga haver privilégios,
para esses, desejo só uma semana
das mais brandas,
com as dores que me tomam há anos!

Eu já disse isso inclusive,
quando alegaram precisar
só por alguns minutinhos
do espaço para pessoas como eu,
pessoas com deficiência, PcD.

Cada passo não é o mesmo passo.
Cada passo não dá pra ser comparado.
Cada dor, seja qualquer estágio,
não pode, não deve, só padece
o corpo quebrado, cansado.

Jenny Faulstich
(Resende, 01/05/2022)

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Obrigada por isso

O abraço mais sincero da noite
Meu coração colado no teu
Em silêncio eu disse que te amava
Eu acho q você entendeu
Obrigada por isso e por tudo
Por essa troca necessária
Ansiosa, até a próxima!

Jenny Faulstich 
(Resende, 20/03/2022)

Cicapari

Ela tão grande, tão única, tão minha,
Onde haveria tatuagem, há uma história!
Ele tão vermelho, gelado, bonito,
Como o amor, doce antes do amargor.


Jenny Faulstich - Foto Celular
(Resende, 18/04/2022)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

31 de dezembro de... quase 200 mortes em Resende

Penúltima noite do ano
e eu não fiz foto da Lua,
brilhante, cheia, acordada,
enquanto costuro inúmeras máscaras,
enquanto tem gente aglomerada na balada,
enquanto famílias recebem 
a notícia que ninguém deseja:
alguém não vai voltar pra casa.

Jenny Faulstich 
(Resende, 31/12/20)